Operação Acolhida: a atuação do GRAD no cuidado com animais em contextos de migração

Em um cenário humanitário complexo em municípios próximos à fronteira entre Brasil e Venezuela, a presença de animais nos abrigos passou a representar um desafio adicional nos contextos de deslocamento populacional. A partir dessa realidade, o GRAD desenvolveu uma atuação técnica voltada ao cuidado com animais, considerando seus impactos na saúde coletiva e na dinâmica dos espaços compartilhados.

Cuidado com animais em contextos de deslocamento humano

A Operação Acolhida foi criada como uma estratégia de resposta humanitária do Governo Federal ao fluxo intenso de refugiados e migrantes venezuelanos na fronteira com o Brasil, especialmente no estado de Roraima. Desde 2018, essa ação busca atender de forma ordenada e segura as pessoas em situação de vulnerabilidade decorrente da crise política, institucional e socioeconômica na Venezuela, incluindo medidas para interiorização e apoio à integração em outros municípios brasileiros.

Esse contexto explica a presença constante de famílias vivendo temporariamente em abrigos, muitas delas acompanhadas por animais que fazem parte de suas rotinas familiares e vínculos afetivos, especialmente entre crianças e outros grupos mais sensíveis às mudanças impostas pela migração. Em abordagens humanitárias internacionais, como as defendidas pela ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), o cuidado integral das famílias em deslocamento incluí atenção à saúde, à dignidade, e aos vínculos que garantem bem-estar em contextos de abrigo.  

De acordo com o Governo Federal, a Operação Acolhida alcançou a interiorização de mais de 150 mil venezuelanos no Brasil, medida que indica o avanço da resposta humanitária em articulação com estados e municípios. A interiorização consiste no deslocamento voluntário de pessoas migrantes e refugiadas para outras cidades do país, com o objetivo de ampliar o acesso a oportunidades de acolhimento, trabalho e integração local. A operação atua de forma contínua no acolhimento, na organização e também no apoio a pessoas em situação de migração forçada.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Nesse cenário, a atuação do Grupo de Resposta a Animais em Desastres (GRAD) surge como uma necessidade para enfrentar a crise de superpopulação e de controle sanitário de animais que passaram a se reproduzir de forma descontrolada nos abrigos. A iniciativa buscou abordar essa realidade a partir de uma perspectiva de Saúde Única, considerando simultaneamente o bem-estar dos animais, a saúde dos tutores e os impactos dessa convivência nos espaços coletivos.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

A Operação Acolhida e os desafios relacionados à presença de animais nos abrigos

A Operação Acolhida é coordenada pelo Comitê Federal de Assistência Emergencial e envolve órgãos públicos, as Forças Armadas e organizações da sociedade civil. Seu objetivo é organizar a resposta humanitária ao fluxo migratório, garantindo moradia, documentação, saúde, interiorização e integração das pessoas atendidas no Brasil.

Os abrigos instalados em Boa Vista e Pacaraima acolhem milhares de pessoas e, nesses espaços, muitos animais acompanham suas famílias. Essa convivência exige atenção não apenas ao atendimento humano, mas também ao bem-estar animal e à saúde coletiva desses ambientes, considerando fatores como vacinação, controle de zoonoses e apoio clínico.

No contexto dos abrigos, os animais, além de companheiros, exercem papel importante em termos de apoio afetivo e de rotinas diárias das famílias migrantes, especialmente em situações de vulnerabilidade prolongada. Por isso, sua inclusão na resposta humanitária reflete uma visão integrada de proteção à vida em todas as suas formas.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Desafios de saúde e bem-estar animal em abrigos humanitários

Animais em situações de deslocamento enfrentam múltiplos desafios que podem afetar sua saúde e bem-estar. A falta de acesso regular a cuidados veterinários, condições de abrigo precárias e exposição a ambientes coletivos aumentam a necessidade de serviços clínicos, sanitários e educativos especializados.

​​A convivência em espaços coletivos demanda atenção a questões como vacinação, controle de parasitas, prevenção de doenças transmissíveis entre animais e pessoas, além do manejo populacional. A ausência de controle reprodutivo pode intensificar conflitos entre os próprios animais, aumentando situações de estresse, riscos à saúde coletiva nos abrigos e disputas por territórios e alimentos.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Como o GRAD atua no cuidado com animais na Operação Acolhida

A atuação do GRAD na Operação Acolhida seguiu diretrizes técnicas e operacionais definidas a partir da identificação das necessidades nos abrigos. As intervenções foram realizadas com equipe técnica especializada e estrutura de hospital de campanha, permitindo a execução segura dos procedimentos mesmo em condições desafiadoras.

Entre as ações documentadas estão:

  • Atendimentos clínicos veterinários a cães, gatos e um psitacídeo;
  • Vacinação e desparasitação 
  • Exames laboratoriais a partir de coleta de sangue;
  • Microchipagem dos animais atendidos
  • Castrações cirúrgicas, realizadas conforme necessidade;
  • Atendimentos emergenciais e cirurgias específicas;
  • Emissão de atestados de saúde para animais de migrantes que estão em processo de interiorização;
  • Ações educativas sobre bem-estar animal, zoonoses e convivência responsável.

 

Essas atividades foram desenvolvidas de forma estruturada e alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera as inter-relações entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Resultados da atuação do GRAD em Roraima

A atuação do GRAD na Operação Acolhida foi organizada em fases distintas, definidas a partir das necessidades identificadas nos abrigos e da complexidade do contexto local. Essa estrutura permitiu a realização de ações complementares ao longo do tempo, combinando atendimentos clínicos, medidas sanitárias e atividades educativas, de acordo com as demandas observadas em cada etapa da operação.

Ao final das ações desenvolvidas na operação, os números registrados apontam resultados consistentes:

  • Mais de 259 animais assistidos em atendimentos clínicos, incluindo cães, gatos e um psitacídeo, com destaque para vínculos afetivos com tutores, inclusive com crianças no espectro autista;
  • Aproximadamente 3.000  pessoas participaram de atividades educativas em saúde e bem-estar animal, sendo grande parte delas crianças;
  • Na segunda fase da missão, foram realizadas 266 castrações de cães e gatos em todos os abrigos de Boa Vista, superando a meta inicial prevista;
  • Na base de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, os relatórios indicam que 134 animais foram castrados, vacinados com V8 e antirrábica, desparasitados e microchipados, com acompanhamento pós-operatório.

Esses resultados estão diretamente relacionados às ações conduzidas nas diferentes fases da operação, estruturada em três etapas distintas – diagnóstico inicial, realização de vacinas e exames e procedimentos de castração – para responder às demandas identificadas ao longo do tempo nos abrigos da Operação Acolhida.

Mais informações sobre essa atuação, incluindo o detalhamento das ações realizadas em Boa Vista e Pacaraima, estão disponíveis na página oficial da missão no site do GRAD, que reúne registros, contexto e informações institucionais da Operação Acolhida em Roraima.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Educação em saúde e o conceito de Saúde Única

Além da assistência veterinária direta, a atuação do GRAD incluiu ações educativas voltadas à promoção da Saúde Única, conceito que integra saúde humana, animal e ambiental.

Em contextos de abrigamento coletivo, como os da Operação Acolhida, o conceito de Saúde Única ganha relevância prática. A convivência contínua entre pessoas e animais em espaços compartilhados exige atenção integrada à prevenção de doenças e ao controle sanitário de todos os envolvidos. Nesse sentido, ações educativas e protocolos estruturados contribuem para reduzir riscos, qualificar o ambiente dos abrigos e fortalecer práticas de cuidado contínuo.

Foram realizadas palestras e atividades educativas abordando temas como bem-estar animal, controle de zoonoses e cuidados básicos com os animais presentes nos abrigos. Nessas ações, a presença de crianças foi significativa, com participação ativa e atenção constante ao longo das atividades.

Segundo Lucas Freitas, diretor técnico do GRAD, “as crianças estavam em massa nas palestras, o que foi muito importante para a educação delas”.

Ao longo das atividades, as crianças demonstraram interesse contínuo pelos temas abordados e, em diversos momentos, colaboraram inclusive no processo de identificação e busca dos animais junto às equipes. Esse envolvimento evidencia o papel das crianças como agentes transformadores da realidade, ampliando o olhar coletivo sobre cuidado, saúde e responsabilidade nos espaços compartilhados.

A educação em saúde, especialmente quando integrada às experiências cotidianas vividas nos abrigos, é uma ferramenta essencial para promover resultados mais consistentes e sustentáveis no curto, médio e longo prazo.

 

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Parcerias institucionais na Operação Acolhida

A atuação do GRAD foi realizada em parceria com o Exército Brasileiro no âmbito do Comitê Federal de Assistência Emergencial, e contou com o apoio de instituições parceiras como Bioclin, Seamaty e MSD. Essas parcerias foram fundamentais para viabilizar tanto os atendimentos clínicos quanto às atividades educativas nos abrigos.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

A integração entre organizações de diferentes setores evidencia a necessidade de respostas colaborativas e articuladas em contextos humanitários complexos, onde demandas humanas e animais se entrelaçam.

Fonte: Acervo GRAD Brasil.

Cuidado com animais como parte da resposta humanitária

A atuação do GRAD na Operação Acolhida demonstra como iniciativas técnicas especializadas podem contribuir de forma concreta para o aprimoramento de respostas humanitárias em cenários complexos. Ao lidar com desafios relacionados à saúde, ao bem-estar animal e à convivência em abrigos coletivos, a intervenção evidenciou a necessidade de abordagens integradas, capazes de responder às demandas que emergem ao longo do tempo em contextos de migração forçada.

A experiência reforça que o cuidado com animais, quando tratado de forma técnica e articulada, amplia a capacidade de resposta humanitária e contribui para ambientes mais seguros e organizados, alinhados aos princípios da Saúde Única e à proteção integral das populações deslocadas.

Para conhecer mais sobre a atuação do GRAD em diferentes contextos humanitários e emergenciais, acesse a página de missões e operações e saiba como essas ações se estruturam em distintas regiões e cenários.

 

Escrito por: Karine Braga – Greenbond Conservation 

Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation

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