O Brasil deu passos importantes no combate à fome, mas ainda convive com desigualdades profundas, que moldam até a forma como nos relacionamos com os animais e o meio ambiente. Em muitos lugares do país, a escassez transforma a natureza em refúgio e em risco ao mesmo tempo. Neste artigo de blog, revelamos como a pobreza e a caça de animais silvestres se entrelaçam em um ciclo silencioso que afeta a conservação, a saúde pública e a própria justiça social. Leia o texto até o final!
O que o mapa da fome tem a ver com saúde e meio ambiente?
O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, mas isso não significa que a insegurança alimentar tenha acabado. Mesmo com avanços recentes, atingindo o menor nível em 20 anos, ainda há mais de 6 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave, segundo o IBGE.
Essa desigualdade não se limita à renda: ela também define o modo como cada pessoa interage com o ambiente e os animais.
Nas regiões mais vulneráveis, especialmente em áreas rurais ou de floresta, a fauna silvestre se torna um recurso de subsistência. Essa dinâmica expõe a interdependência entre pobreza, degradação ambiental e riscos à saúde coletiva, um elo complexo que evidencia como as crises sociais, ecológicas e sanitárias se retroalimentam. É nesse ponto que surge a urgência de integrar saúde pública, conservação ambiental e políticas de redução de vulnerabilidade social.
Como a desigualdade social estimula a caça de animais
Para muitas comunidades periféricas e ribeirinhas, a vulnerabilidade social cria um cenário em que a fauna silvestre acaba se tornando um recurso de sobrevivência. Quando o acesso à alimentação, à renda e às oportunidades é escasso, parte das famílias recorre à caça e ao consumo de animais silvestres, não por escolha, mas pela ausência de alternativas..
Um estudo realizado no interior do estado do Acre , analisou mais de 800 moradores e identificou que o ato de caçar estava diretamente associado a condições de insegurança alimentar e vulnerabilidade socioeconômica.
Os autores destacam que, embora o consumo de carne de caça apresente variação entre perfis sociais, a pressão sobre a fauna tende a aumentar em contextos de exclusão e desigualdade, especialmente em locais onde a fiscalização e as alternativas alimentares são limitadas
Esse contexto evidencia que a caça em situações de vulnerabilidade é um sintoma da exclusão social, e não a solução para ela. Sem políticas de inclusão produtiva, segurança alimentar e alternativas econômicas sustentáveis, comunidades permanecem presas a um ciclo em que a sobrevivência depende da exploração direta dos recursos naturais, um reflexo da ausência de uma transição justa entre justiça social e conservação.
Quais são os riscos sanitários do consumo de carne de caça
Consumir ou manusear carne de animais selvagens traz riscos diretos à saúde pública, especialmente em regiões onde a fiscalização sanitária é precária.
No Médio Solimões, análises laboratoriais mostraram que 78% das 170 amostras de carne de caça estavam contaminadas com microrganismos como Mycobacterium leprae (conhecida como lepra), além de parasitas causadores de leishmaniose, toxoplasmose e doença de Chagas.
Esses dados evidenciam que a vulnerabilidade social, insegurança alimentar e o desmatamento andam lado a lado com a emergência de zoonoses, doenças transmissíveis entre espécies, que podem se espalhar rapidamente e gerar crises sanitárias de grandes proporções.

Foto: Divulgação Fapeam / Dra. Waleska Gravena.
O elo entre desmatamento, caça e novas doenças
Quando florestas são destruídas e ecossistemas se tornam frágeis, o equilíbrio natural se rompe. Espécies que antes viviam isoladas passam a conviver com humanos, abrindo caminho para que vírus e bactérias atravessem essa fronteira.
A caça acelera esse processo. Ela não respeita períodos de reprodução nem espécies protegidas, e o abate de fêmeas e filhotes impede a recuperação natural das populações. O resultado é um desequilíbrio ecológico que rompe barreiras naturais e altera o comportamento das espécies. Quando há perda de habitat e redução da biodiversidade, vírus e bactérias que antes circulavam apenas em ambientes silvestres encontram novas formas de se espalhar, um reflexo direto da ação humana sobre a natureza.
Segundo pesquisa divulgada pela Fiocruz e publicada na Science Advances, populações vulneráveis que vivem em áreas remotas estão entre as mais expostas ao surgimento de novas zoonoses. Esse risco aumenta onde há degradação ambiental, perda de biodiversidade e falhas no sistema de saúde, criando condições favoráveis à circulação de vírus e bactérias entre espécies..
A pandemia de Covid-19 escancarou o impacto global de uma zoonose e a fragilidade do nosso equilíbrio com a natureza. A questão que fica é inevitável: se a conservação ambiental não for tratada como parte essencial da saúde pública, até quando estaremos realmente seguros?

Poço utilizado na caça ilegal de jacarés identificado durante a seca no Pantanal — acervo do GRAD Brasil.
Como proteger a fauna e reduzir desigualdades ao mesmo tempo
No Amazonas, análises já investigaram contaminação em carnes de caça vendidas localmente, reforçando a urgência de ações conjuntas entre conservação e segurança alimentar.
No cenário federal, o Ministério da Saúde do Brasil já estabelece diretrizes claras para a vigilância de zoonoses por meio do Manual de Vigilância, Prevenção e Controle de Zoonoses – Normas Técnicas e Operacionais. Esse documento evidencia que a conservação ambiental não é um tema isolado, mas uma parte essencial da saúde pública nacional.
O desafio, contudo, é ético e político. A simples proibição da caça, sem garantir condições dignas de subsistência e alimentação, não resolve o problema, assim como a ausência de controle agrava o desequilíbrio ambiental. A resposta está em políticas públicas integradas, que unam alternativas econômicas sustentáveis, segurança alimentar, geração de renda e educação ambiental, reduzindo vulnerabilidades e fortalecendo a proteção da fauna.

Missão humanitária dentro da Terra Indígena Yanomami – Foto: Acervo GRAD Brasil.
Como o GRAD atua na intersecção entre desigualdade social e saúde animal
O GRAD tem demonstrado, na prática, que cuidar da saúde animal é também cuidar da saúde das pessoas. Por meio de campanhas de vacinação, resgates e ações educativas, apoiamos comunidades em situação de vulnerabilidade, levando informação, atendimento veterinário gratuito e orientação preventiva.
Essas ações contribuem para reduzir o risco de zoonoses, fortalecer a consciência ambiental e promover bem-estar coletivo, especialmente em territórios com poucos recursos e maior exposição à doenças.

Missão humanitária dentro da Terra Indígena Yanomami – Foto: Acervo GRAD Brasil.
O que podemos aprender com os povos indígenas?
Muitas comunidades indígenas vivem em equilíbrio com o ambiente há séculos, baseando-se em práticas que respeitam o ciclo natural das espécies e garantem o uso sustentável dos recursos. Esses conhecimentos tradicionais revelam uma forma de convivência com a natureza que combina manejo responsável e profundo senso de interdependência entre todas as formas de vida.
De acordo com a FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), o reconhecimento dos saberes tradicionais é fundamental para a proteção dos territórios e da biodiversidade. Essa visão converge com pesquisas desenvolvidas na Unicamp, que aponta que o conhecimento indígena fortalece tanto a conservação das espécies quanto a preservação das culturas locais.

Vista aérea de território Yanomami. Foto: Edson Sato.
O GRAD desenvolve ações humanitárias e veterinárias com comunidades indígenas em diferentes regiões do país. Saiba mais sobre essa atuação aqui.
Os animais mais caçados e o impacto na biodiversidade
A caça segue sendo uma das principais pressões sobre a fauna brasileira. Espécies como tatus, cutias, pacas, jacarés e aves silvestres, estão entre as mais visadas, seja para consumo, comércio ou captura. Muitas delas já constam na lista oficial de espécies ameaçadas do ICMBio.
A perda desses animais, além de reduzir populações inteiras, interfere diretamente em serviços ecossistêmicos essenciais, como a dispersão de sementes e o controle natural de pragas, agravando ainda mais o equilíbrio ambiental.
Quando as espécies desaparecem, a floresta perde sua capacidade de regeneração, e nós, humanos, perdemos a proteção natural contra doenças.

Animal morto vitíma de caça ilegal – Foto: Acervo GRAD Brasil.
Caça, tráfico de animais e comércio ilegal: uma rede que ameaça a fauna
Além da caça, o tráfico e o comércio ilegal de animais silvestres compõem uma rede criminosa e organizada, responsável por movimentar bilhões de reais todos os anos no Brasil. Segundo o IBAMA, trata-se do terceiro maior crime ambiental do país, ficando atrás apenas do tráfico de drogas e de armas.
Milhares de animais são capturados anualmente para abastecer o comércio clandestino, tanto interno quanto internacional. Enquanto alguns são vendidos como animais de estimação exóticos, outros são explorados para fins comerciais, científicos ou ornamentais, e poucos sobrevivem ao transporte precário e às condições de cativeiro.

Foto: Mauro Pimentel / AFP
Durante a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, realizada no dia 28/10/25, um macaco-prego com fralda foi avistado nas costas de um policial da Divisão de Busca e Recaptura (Recap), da Polícia Penal do estado. Essa imagem é uma prova clara do tráfico de animais silvestres que põe em risco a vida e o bem-estar de animais, assim como a saúde pública.
Essas práticas têm impactos que vão além da perda da fauna: alimentam redes criminosas, fragilizam o controle sanitário e aumentam o risco de zoonoses, já que o contato direto com animais silvestres favorece a transmissão de vírus e bactérias. De acordo com o WWF Brasil, o comércio ilegal de fauna é um dos principais vetores de doenças emergentes no mundo, conectando biodiversidade, economia e saúde pública em uma mesma crise.
Saiba mais sobre o tráfico de animais no Brasil e o que você pode fazer para combater esse crime. Leia o artigo completo clicando aqui.

Equipe veterinária da deputada Joana Darc durante o atendimento à onça-pintada resgatada no Amazonas.
Uma onça-pintada foi resgatada no Rio Negro, em Manaus, por uma equipe treinada pelo GRAD Brasil, após ser encontrada nadando por horas e com ferimentos causados por disparos de arma de caça. A operação mobilizou veterinários, órgãos ambientais e autoridades locais em uma ação conjunta pela vida selvagem. Saiba mais sobre essa atuação aqui.
O elo que precisamos enxergar
A desigualdade social, a caça e as doenças não são problemas isolados. Elas formam um mesmo elo, invisível, mas poderoso e perigoso. Quando falha a articulação entre justiça social, proteção ambiental e vigilância sanitária, quem sofre primeiro são as periferias, os povos tradicionais e os animais.
Romper esse ciclo exige educação, políticas públicas interdisciplinares e engajamento social. A luta por um país mais justo e saudável passa, inevitavelmente, por repensar nossa relação com a natureza e compreender que a saúde de todos os seres está interligada.
Escrito por: Karine Braga – Greenbond Conservation
Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation