O Brasil é conhecido por sua riqueza biológica, abrigando uma fauna silvestre altamente diversa distribuída entre seus biomas. No entanto, essa diversidade está sob constante ameaça. O atropelamento da fauna é um dos principais problemas. Estima-se que milhões de animais sejam atropelados nas estradas brasileiras todos os anos, colocando em risco a biodiversidade e a integridade dos ecossistemas.
Este artigo aborda os impactos dos atropelamentos de fauna, suas causas e as soluções sustentáveis que podem ajudar a mitigar esse problema. Leia até o final e descubra como podemos reduzir essa ameaça à biodiversidade e proteger mais vidas nas estradas!
O que é atropelamento de fauna?
O atropelamento de fauna é a morte ou ferimento de animais silvestres causado por veículos em rodovias ou estradas. Esse fenômeno ocorre quando os animais tentam cruzar vias que atravessam seus habitats naturais, seja em busca de alimento, água, abrigo ou parceiros para reprodução. A expansão das rodovias e o aumento do tráfego de veículos têm agravado esse problema, especialmente em regiões com alta biodiversidade.
Os atropelamentos podem ocorrer em qualquer tipo de via rodoviária, mas é mais comum em estradas que cortam áreas naturais como florestas, cerrados, pântanos e outros ecossistemas importantes.
Áreas de maior risco de atropelamento de fauna
Rodovias próximas a áreas de preservação ambiental ou corredores ecológicos são as mais críticas, pois concentram grande biodiversidade e fluxo de animais.
Alguns exemplos de áreas de alto risco no Brasil incluem:
- A BR-262, que liga Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, é conhecida como a “rodovia da morte” devido ao alto número de atropelamentos. Segundo um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), entre 2017 e 2020, foram registradas 6.650 animais mortos, uma média de 180 por mês, na BR-262 entre Campo Grande e a ponte do Rio Paraguai.
- A BR-101 é uma das mais movimentadas do Brasil, ligando as regiões Sul e Sudeste ao Nordeste do país. O trecho da rodovia próximo da Reserva Biológica Sooretama, no Espírito Santo, é um dos que mais registram atropelamentos de animais.
- Mais ao Sul do país, o trecho da BR-471 que atravessa a Estação Ecológica do Taim também registra inúmeros atropelamentos, principalmente de mamíferos de médio porte, como capivaras.
Por que essas áreas são críticas?
As áreas críticas para atropelamentos de fauna são caracterizadas por três fatores principais que aumentam significativamente o risco de colisões entre veículos e animais silvestres. Primeiro, essas regiões funcionam como corredores ecológicos, conectando habitats naturais e permitindo o fluxo genético entre populações de animais.
Esse movimento é essencial para a manutenção da diversidade genética e a sobrevivência das espécies, mas ocorre em locais onde as rodovias fragmentam os ecossistemas, obrigando os animais a cruzar estradas para acessar recursos como alimento, água ou parceiros para reprodução.
Segundo, essas áreas possuem uma biodiversidade elevada, especialmente em biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, que abrigam uma grande variedade de espécies, muitas delas endêmicas ou ameaçadas de extinção.
Por fim, o tráfego intenso nas rodovias, que são frequentemente utilizadas para o transporte de cargas e passageiros, agrava o problema. O alto volume de veículos, somado à velocidade elevada e à falta de sinalização adequada, eleva a probabilidade de colisões com animais silvestres. Além de ser uma ameaça a fauna, dependendo do porte do animal, também coloca em risco a segurança dos motoristas e passageiros.
Atropelamentos de fauna: um problema alarmante
Estima-se que quase nove milhões de mamíferos de médio e grande porte sejam vítimas de atropelamentos anualmente no Brasil, uma perda de mais de 10 mil toneladas de biomassa. O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a anta (Tapirus terrestris).
Inúmeras vezes, em deslocamento para missões, as equipes do GRAD registraram a ocorrência de animais atropelados, desde grandes mamíferos, como o tamanduá-bandeira, até anfíbios e répteis. Essas espécies, por possuírem baixa taxa reprodutiva e necessidade de grandes áreas para sobrevivência, são especialmente vulneráveis aos impactos das rodovias.

Foto: Tamanduá-bandeira atropelado registrado pela equipe do GRAD em deslocamento para o Pantanal.
O impacto das rodovias na fauna silvestre brasileira
O Brasil possui cerca de 120 mil espécies de invertebrados e 8.930 espécies de vertebrados, incluindo 734 mamíferos, 1.982 aves, 732 répteis, 973 anfíbios e 4.508 peixes. Desse total, 1.254 espécies já estão ameaçadas de extinção. Com a quarta maior malha rodoviária do mundo, que soma 1,7 milhões de quilômetros, as rodovias brasileiras são uma das principais causas de mortalidade da fauna silvestre devido aos atropelamentos.
Principais causas do atropelamento de fauna
A construção de novas rodovias atravessando áreas naturais frequentemente fragmentam habitats, isolando o ambiente dos animais e dificultando sua localização na tentativa de atender às suas necessidades fisiológicas.
Com o aumento do tráfego nessas áreas, aumenta também a incidência de atropelamentos, especialmente em regiões onde as estradas cortam corredores ecológicos.
A alta velocidade dos veículos nas rodovias próximas às áreas de preservação é um dos principais fatores que levam ao atropelamento da fauna. Muitos não estão cientes dos riscos dos motoristas ou simplesmente ignoram a necessidade de reduzir a velocidade em trechos críticos para a travessia de animais.
Além disso, a ausência de sinalização adequada alertando sobre a presença de fauna silvestre agrava o problema.
A ausência de estruturas como passagem de fauna ou corredores ecológicos em muitas rodovias, aliada à falta de políticas públicas que incentivam a sua construção, continua sendo um grande desafio para a conservação da biodiversidade.
A falta de iluminação nas estradas também contribui para os atropelamentos da fauna.Em rodovias mal iluminadas, os motoristas têm menos visibilidade e menos tempo para reagir à presença de animais na pista, especialmente à noite, quando muitos animais silvestres estão mais ativos. Além disso, a ausência de iluminação pode dificultar a percepção de sinalizações que alertam sobre a presença de fauna na região.

Foto: Espécie de ave atropelada na Estrada Parque Transpantaneira, registrada pela equipe do GRAD em deslocamento.
Soluções para reduzir o atropelamento de fauna
Existem inúmeras estratégias para mitigar a mortalidade de animais silvestres em rodovias. Mas é essencial realizar estudos e avaliações para identificar as soluções mais eficazes e viáveis para cada contexto.
Infraestrutura para a fauna:
A instalação de passagens seguras para animais reduz significativamente os atropelamentos. Algumas dessas soluções incluem: passagens subterrâneas (túneis sob as rodovias para pequenos e médios animais), viadutos verdes (corredores de vegetação para travessia de grandes mamíferos) e passagens aéreas (estruturas para primatas e animais arborícolas).
Uso de tecnologia:
Sensores, inteligência artificial e repelentes sonoros e olfativos podem alertar motoristas e afastar animais das rodovias.
Legislação e políticas públicas:
Políticas públicas eficazes são essenciais para proteger a fauna. Leis como o Código Florestal Brasileiro e a criação de unidades de conservação são passos importantes, mas é necessário investir em infraestrutura sustentável e parcerias com instituições de pesquisa.
Educação e conscientização:
Campanhas para sensibilizar motoristas sobre a importância de reduzir a velocidade em áreas de risco é fundamental. Programas de educação ambiental e plataformas online para registro de atropelamentos, como o “Estrada Viva“, têm ajudado a engajar a população nesse esforço.
A proteção da fauna silvestre nas rodovias exige um esforço conjunto entre governo, sociedade e pesquisadores. Embora o custo das medidas mitigatórias possa ser elevado, os benefícios ambientais e a conservação da biodiversidade justificam esse investimento, além de garantir a segurança dos passageiros.
A convivência harmoniosa entre o desenvolvimento e a conservação só será possível com planejamento adequado e políticas públicas eficazes.
Escrito por: Rubia Rempalski – Greenbond Conservation
Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation