Tungíase no Território Yanomami revela crise sanitária persistente

A tungíase é uma doença tropical negligenciada, causada pela pulga Tunga penetrans, associada a contextos de vulnerabilidade social e ambiental. No território indígena Yanomami, a ocorrência da doença evidencia um cenário complexo que envolve condições estruturais, ambientais e sanitárias, revelando a persistência de uma crise que afeta pessoas, animais e o ambiente.

 

O que é a tungíase e por que ela preocupa

Considerada uma doença tropical negligenciada, a tungíase (também conhecida como bicho-de-pé) afeta principalmente populações com acesso restrito a serviços de saúde e saneamento. Embora seja prevenível e tratável, permanece associada a contextos de invisibilidade social e baixa prioridade em políticas públicas de saúde.

A infecção ocorre quando a fêmea da pulga ( Tunga penetrans) penetra na pele para se alimentar de sangue e depositar ovos, causando dor intensa, inflamação e lesões que podem evoluir para quadros incapacitantes . Em crianças, pode causar lesões graves, comprometimento o sistema cognitivo e estigma social, além de abrir portas para infecções secundárias potencialmente fatais.

A transmissão está associada principalmente ao contato com solos secos e arenosos, como os de chão de terra batida, onde o parasita completa seu ciclo de vida. Fatores como pobreza, moradia sem piso adequado, higiene precária e falta de acesso a cuidados de saúde favorecem a disseminação da doença.

No Brasil, a doença atinge entre 1,6% e 54,8% da população, afetando principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade social, incluindo povos indígenas. Crianças entre 5 e 10 anos estão entre as mais afetadas, sobretudo quando há contato frequente com o solo e com animais que podem hospedar a pulga, segundo relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema de Saúde (Conitec), do Ministério da Saúde.

 

Impactos da tungíase em crianças e animais no território Yanomami

Em contextos de vulnerabilidade extrema, como no território Yanomami, a tungíase pode se tornar debilitante. Há registros de crianças com múltiplas lesões dolorosas que dificultam a locomoção e comprometem atividades cotidianas. Embora raramente fatal de forma direta, a doença favorece infecções secundárias que podem evoluir para complicações graves, incluindo amputações e infecções sérias

Em casos extremos, a extensão das lesões levou à perda das digitais. Na região em que atuamos, muitas pessoas já passaram por esse processo, que compromete uma das principais características morfológicas de identificação individual do ser humano. Em contextos de vulnerabilidade histórica, esse efeito ultrapassa o campo da saúde, afetando diretamente a dignidade humana ao dificultar o reconhecimento formal do indivíduo e o acesso a direitos básicos.

 

Fotos: Acervo GRAD Brasil.

 

Animais que convivem com as comunidades também são afetados. Em 2023, durante atuação do GRAD no território, equipes encontraram animais desnutridos e com infestação severa de tungíase. A presença da doença nos animais contribui para a manutenção do ciclo do parasita no ambiente, já que cães, gatos e porcos podem atuar como hospedeiros da pulga Tunga penetrans. O chão de terra batida, comum nas aldeias, favorece a reprodução do parasita, criando um ambiente continuamente contaminado.

Nas comunidades indígenas, a relação das pessoas com os animais domésticos não se estabelece a partir de uma lógica utilitária. Eles fazem parte do cotidiano das aldeias e são reconhecidos como integrantes da vida comunitária, compartilhando o mesmo território e as mesmas dinâmicas de cuidado.

Essa convivência está ligada a uma compreensão ancestral de coexistência entre seres humanos, animais e floresta. Quando animais adoecem ou estão debilitados, os impactos ultrapassam o âmbito individual e repercutem no equilíbrio coletivo da comunidade, evidenciando a profunda interdependência entre saúde humana, animal e ambiental.

Por isso, o enfrentamento da doença exige estratégias integradas capazes de considerar essas dimensões de forma simultânea,, princípio conhecido como Saúde Única (One Health).

 

Desequilíbrios ambientais e agravamento sanitário

A ocorrência de tungíase no território Yanomami também está inserida em um contexto mais amplo de degradação ambiental e sanitária. O avanço do garimpo ilegal intensificou o desmatamento e alterou ecossistemas locais, criando condições que favorecem a circulação de parasitas.

Entre 2018 e 2022, o desmatamento associado ao garimpo ilegal aumentou significativamente na região, com crescimento de 309% na área devastada dentro do território Yanomami e milhares de hectares de floresta impactados. A expansão da atividade minerária provocou fragmentação de áreas florestais, assoreamento de rios e alteração de ecossistemas essenciais à subsistência das comunidades, além de intensificar a circulação de pessoas e vetores de doenças.

 

Foto: Leo Otero MPI

 

A contaminação por mercúrio em rios e comunidades também se consolidou como um importante fator de risco à saúde coletiva. Um estudo realizado com cerca de 300 indígenas do território Yanomami aponta níveis generalizados de contaminação pelo metal pesado nas amostras analisadas, evidenciando a relação direta entre a atividade garimpeira e o agravamento das condições sanitárias e ambientais na região.

Essas transformações afetam a segurança alimentar, o acesso à água e as condições gerais de saúde das comunidades, contribuindo para a persistência de doenças parasitárias e infecciosas.

 

Atuação do GRAD no Território Yanomami

O GRAD atuou no território Yanomami durante a crise sanitária e humanitária iniciada em 2023, com equipes em campo nas comunidades de Olomai e Aariz. Durante a missão, foram identificados animais em situação de desnutrição severa e com alta ocorrência de tungíase, além de crianças afetadas pela doença em níveis preocupantes. 

As equipes realizaram atendimento veterinário emergencial, administração de fármacos com ação terapêutica residual para controle da tungíase, testes de triagem para doenças infecciosas e coleta de amostras laboratoriais para análise. 

Ao todo, 125 animais foram atendidos em diferentes comunidades , incluindo aldeias dos polos de Auaris e Olomai e os animais presentes na Casa de Saúde Indígena (CASAI). 

Fotos: Acervo GRAD Brasil

 

Além do atendimento imediato, foram estruturadas propostas de continuidade do trabalho, incluindo ações de controle da tungíase, manejo populacional de animais e iniciativas alinhadas à abordagem de Saúde Única. As propostas incluíam o tratamento continuado de animais acometidos por parasitoses e desnutrição, campanhas de castração e estratégias de redução da circulação de doenças compartilhadas entre pessoas e animais, com foco na melhoria das condições sanitárias das comunidades.

Desde então, o GRAD busca autorização para retomar as atividades no território, com o objetivo de contribuir tecnicamente para a melhoria das condições sanitárias de animais e comunidades e para o enfrentamento integrado de doenças que afetam simultaneamente pessoas, animais e o ambiente. 

A retomada das ações depende de autorização para acesso logístico ao território, condição necessária para a continuidade do apoio humanitário e sanitário proposto pela instituição.

 

Saúde Única e respostas integradas

O cenário da tungíase no território Yanomami evidencia que as estratégias de enfrentamento eficazes devem ser pensadas a partir do conceito de Saúde Única. Não é possível resolver o problema da tungíase em crianças sem tratar também os animais e o ambiente contaminado.

A situação no território Yanomami demanda uma resposta integrada que considere todos os aspectos do problema: o tratamento das pessoas afetadas, o cuidado com os animais, a melhoria das condições ambientais e o combate ao garimpo ilegal que degrada o território.

O GRAD possui um projeto estruturado e pronto para atuar no território Yanomami. A proposta é simples: tratar a desnutrição dos animais, realizar castrações e retirar do território aqueles que estejam em excesso, além de colaborar no controle da tungíase que vem assolando as crianças Yanomami há décadas. Tudo isso sem gerar nenhum custo ao Governo Federal.

No entanto, o acesso ao território Yanomami só é possível por meio dos aviões licitados pelo governo, o que torna a autorização indispensável. Em 2023, quando nossas equipes estiveram em campo, representantes do Governo Federal nos acompanharam e viram de perto a gravidade da situação dos animais. Desde então, aguardamos essa autorização para retomar e dar continuidade ao trabalho humanitário iniciado.

Para 2026, o objetivo do GRAD é voltar a atuar no território Yanomami e dar continuidade ao trabalho iniciado. Mas isso só será possível com apoio público. A campanha “GRAD noTerritorio Yanomami” nasce com o propósito de mobilizar a sociedade para pressionar as autoridades competentes e sensibilizar o poder público sobre a urgência dessa atuação.

Essa é uma situação que requer o comprometimento de todos. Compartilhe essa causa e ajude a dar visibilidade a essa emergência sanitária que afeta crianças, animais e comunidades inteiras. 

Juntos, podemos contribuir para que o GRAD retorne ao território e atue no controle da tungíase, melhorando a qualidade de vida tanto das crianças quanto dos animais no território Yanomami.

 

Escrito por: Ingryd Hayara – Greenbond Conservation 

Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation

Juntos, podemos fazer a diferença na vida dos animais em situações de emergência.

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