Secas extremas, enchentes históricas, ondas de calor e incêndios florestais mostram que a emergência climática já impacta diretamente o Brasil. Mesmo com uma pauta tão urgente já difundida, poucos estados do país possuem planos de ação para enfrentar esse desafio. O cenário é complexo, envolve realidades distintas e revela uma necessidade urgente por maior preparo e integração entre diferentes setores da sociedade.

Integrante do GRAD Brasil durante varredura em área afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul — Foto: Acervo GRAD Brasil
O que são planos climáticos estaduais e por que eles são importantes?
Planos estaduais de ação climática organizam, em um único documento, todas as estratégias, metas e prazos para mitigar emissões de gases de efeito estufa e adaptar cidades e populações aos impactos da emergência climática.
Esses planos de ação funcionam como um guia para governos, setores produtivos e sociedade civil, além de dar acesso a financiamentos nacionais e internacionais.
Sem esse instrumento, respostas a eventos extremos geralmente são feitas de forma reativa, centradas em ações da Defesa Civil, em vez de medidas de prevenção e resiliência.
Quem está pronto? Os únicos quatro estados com planos completos
Segundo o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro Brasil no Clima, apenas quatro estados brasileiros apresentaram planos completos de ação climática: Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí.
Esses estados detalharam metas para reduzir emissões e ações para adaptação, indicando responsabilidades claras, prazos, monitoramento e recomendações específicas para setores econômicos, urbanos e ambientais.
O avanço, no entanto, não é uniforme. Segundo Thaís Ferraz, diretora do iCS, ainda existe um descompasso entre a criação de políticas climáticas e o aumento dos desastres naturais. Enquanto os impactos da emergência climática aceleram no Brasil, poucos governos estaduais criam planos robustos para se antecipar às consequências.
Os números mostram o ritmo alarmante dos extremos climáticos. Segundo a Folha de Pernambuco, um levantamento do iCS apontou que:
- 4.699 desastres climáticos aconteceram no Brasil em 2024 (até junho);
- Os principais eventos foram secas, chuvas extremas e incêndios florestais;
- Os prejuízos somaram R$38 bilhões.
A Pesquisa de Informações Básicas Municipais, apresentada pelo IBGE sobre a tempestade de 2024 no Rio Grande do Sul, expõe a dimensão dos impactos e o desafio para os gestores públicos. Ao mesmo tempo, dados do IBGE apontam que 59,4% dos municípios não têm plano de gestão de riscos para desastres naturais, o que expõe metade do território brasileiro à vulnerabilidade.
Por que apenas quatro estados chegaram lá?
Vários motivos ajudam a entender esse atraso nacional:
- Baixa capacidade técnica e institucional;
- Falta de recursos orçamentários destinados exclusivamente para ações climáticas;
- Dificuldade para a elaboração de diagnósticos setoriais detalhados;
- Prioridade política nacional e local limitada diante de tantas outras emergências sociais e econômicas.
Outro obstáculo frequente é a ausência de orçamento regular e exclusivo para políticas climáticas. Os recursos disponíveis normalmente vêm de fundos emergenciais, e não são suficientes para acompanhamento sistemático, capacitação técnica ou modernização dos sistemas de monitoramento.
A falta de recursos coloca em xeque a continuidade de programas e acaba por manter populações em situação de risco elevado diante da emergência climática.

Resgate de felino durante as enchentes no Rio Grande do Sul — Foto: Reprodução/GRAD Brasil
Emergência climática e El Niño: por que os eventos extremos estão mais intensos?
Nos últimos anos, o fenômeno El Niño voltou a intensificar eventos climáticos extremos em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil. Associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, o fenômeno altera padrões de chuva e temperatura, favorecendo secas severas em algumas regiões e enchentes em outras.
A combinação entre El Niño e a emergência climática potencializa ainda mais os impactos ambientais e sociais. Ondas de calor históricas, incêndios florestais e chuvas extremas registrados recentemente no país estão diretamente ligados a esse desequilíbrio climático.
Além disso, especialistas alertam que o aquecimento global pode tornar os efeitos do El Niño ainda mais imprevisíveis e severos nas próximas décadas. Isso significa que eventos antes considerados incomuns tendem a se tornar mais frequentes, prolongados e intensos, pressionando sistemas urbanos, agricultura, abastecimento hídrico e a segurança alimentar de milhões de pessoas.
No Brasil, os reflexos já são perceptíveis em diferentes biomas. Enquanto a Amazônia enfrenta períodos de seca extrema e aumento do risco de queimadas, regiões do Sul convivem com chuvas volumosas e enchentes históricas. No Nordeste, a irregularidade das chuvas impacta diretamente reservatórios, produção agrícola e comunidades vulneráveis.
Esse cenário reforça a necessidade urgente de políticas públicas integradas, prevenção de desastres e fortalecimento dos planos de adaptação diante da emergência climática.
Tecnologia a serviço da adaptação: o exemplo do Cool Cities Lab frente às emergências climáticas
A ação articulada entre governos e sociedade pode ganhar fôlego com tecnologia e inovação. O lançamento do Cool Cities Lab (Laboratório de Cidades Legais) pelo World Resources Institute representa um passo interessante nesse sentido. Trata-se de uma plataforma digital gratuita, já presente em mais de 20 cidades globais, incluindo Teresina, Florianópolis, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Campinas.
A plataforma mapeia pontos críticos de calor extremo e testa virtualmente intervenções urbanas capazes de reduzir a temperatura em áreas vulneráveis. Além disso, simula cenários e apresenta soluções de resfriamento, como aumento de áreas verdes. A inovação pode ser chave para estimular políticas mais eficazes e baseadas em evidências para enfrentar eventos como ondas de calor e ilhas de calor urbanas.
Emergências climáticas e a integração entre sociedade e governo
Diante tantos desafios, destaca-se o papel fundamental de organizações da sociedade civil, como o GRAD Brasil. Nossa instituição, reúne mais de 100 voluntários em operações de resgate animal, assistência a famílias multiespécies e ajuda humanitária em áreas afetadas por desastres em todo o território nacional.
A experiência do GRAD em missões como Mariana, Pantanal, crise sanitária em território Yanomami, enchentes no Rio Grande do Sul e o trabalho humanitário realizado na Operação Acolhida em Boa Vista e Pacaraima, ilustra a importância de ações articuladas entre organizações não-governamentais e órgãos oficiais.
Muitas vezes, a resposta coordenada só é possível graças à união de esforços e ao compartilhamento de dados, logística e conhecimento técnico. Esse tipo de cooperação pode servir de estímulo para estados e municípios ampliarem seu olhar e incluírem metas mais ousadas em seus planos climáticos.
Para além da Defesa Civil: resiliência e prevenção das emergências climáticas
O enfrentamento da emergência climática exige visão de longo prazo. Investir em prevenção é, hoje, mais relevante e mais barato que as respostas sempre emergenciais. Isso inclui:
- Planejamento urbano com mapas de risco, zonas de inundação, rotas de evacuação e critérios para construção segura;
- Ampliação e qualificação do atendimento de emergência especializado;
- Educação ambiental e campanhas de conscientização contínuas;
- Monitoramento em tempo real e sistemas de alerta precoce;
- Integração de ações para humanos, animais e meio ambiente.
Contudo, estados e municípios precisam ir além dos planos no papel: é hora de transformar metas em ações concretas e envolver todos os atores, incluindo organizações sociais, empresas, universidades e moradores das áreas de risco.
A COP30, realizada no Brasil, abriu portas para discussões inéditas sobre vulnerabilidade social e ambiental, ampliando o debate sobre adaptação climática, justiça ambiental e proteção das populações vulneráveis.
A pressão internacional e a própria sociedade podem acelerar o processo, mas será preciso vontade política e orçamento fixo para garantir avanços. A emergência climática já não é uma previsão distante: ela redefine cidades, biomas, economias e modos de vida

Capacitação de membros do GRAD Brasil em 2025 — Foto: Diego Bavarelli
Confira esta publicação do nosso Instagram e fique por dentro sobre quem mais sofre com a emergência climática no Brasil.
Escrito por: Manoel Pontes – Greenbond Conservation
Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation