O que é Saúde Única (One Health)? O conceito que conecta humanos, animais e ambiente em tempos de crise e desastres

O que é Saúde Única (One Health)? O conceito que conecta humanos, animais e ambiente em tempos de crise e desastres

A saúde única propõe um olhar mais inteligente e estratégico sobre os desafios do nosso tempo. Compreender que crises sanitárias, ambientais e sociais não acontecem de forma isolada: elas se conectam, se intensificam e exigem respostas igualmente integradas. Em um cenário marcado por desastres cada vez mais frequentes, expansão urbana e pressão sobre os ecossistemas, ignorar essa interdependência já não é uma opção viável. É nesse contexto que a saúde única deixa de ser apenas um conceito e se consolida como um caminho prático para prevenir riscos, orientar decisões e proteger vidas em todas as suas formas.

 

O que é saúde única (One Health)?

 

A saúde única é uma abordagem integrada que reconhece que a saúde humana, animal e ambiental estão profundamente interligadas e são interdependentes. O conceito é amplamente promovido por organizações como a Organização Mundial da Saúde, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e a Organização Pan-Americana da Saúde, que defendem estratégias colaborativas para enfrentar desafios globais.

A definição mais aceita descreve a saúde única como uma abordagem capaz de equilibrar e otimizar a saúde de pessoas, animais e ecossistemas de forma sustentável. Isso significa que problemas de saúde não podem ser analisados de forma isolada, pois envolvem múltiplas dimensões ecológicas, sociais e econômicas.

Além disso, o termo envolve diferentes setores e disciplinas, como medicina, medicina veterinária, biologia, ecologia e políticas públicas, trabalhando de maneira coordenada. Essa integração permite respostas mais eficazes a ameaças complexas, como pandemias, mudanças climáticas e insegurança alimentar.

No Brasil, o conceito de saúde única (também chamado de “Uma Só Saúde”) vem ganhando destaque como uma estratégia essencial para lidar com desafios sanitários emergentes, promovendo ações que vão do nível local ao global.

 

Por que a saúde única é essencial no mundo atual?

 

 

A relevância da saúde única se torna evidente diante do aumento de doenças zoonóticas (transmitidas entre animais e humanos). Estima-se que grande parte das doenças infecciosas emergentes tenha origem animal, o que reforça a necessidade de uma abordagem integrada.

Eventos recentes, como a pandemia de COVID-19, evidenciaram como desequilíbrios ambientais e a intensificação do contato entre humanos e fauna silvestre podem desencadear crises globais. A saúde única surge como uma resposta preventiva a esses cenários.

Dentre os principais desafios enfrentados pela saúde única, podemos mencionar:

  • Emergência de novas doenças zoonóticas;
  • Resistência antimicrobiana;
  • Mudanças climáticas;
  • Degradação ambiental e perda de biodiversidade.

Outro ponto crítico é a resistência antimicrobiana, impulsionada pelo uso indiscriminado de antibióticos em humanos e animais. Esse problema é considerado uma das maiores ameaças à saúde global e só pode ser enfrentado por meio de estratégias integradas, como propõe a saúde única.

Além disso, fatores como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e urbanização desordenada aumentam o risco de surgimento e disseminação de doenças, reforçando a necessidade de políticas públicas baseadas em saúde única.

 

Saúde única no cotidiano: exemplos práticos

 

A saúde única está presente em diversas situações do dia a dia, mesmo que muitas vezes passe despercebida. Um exemplo clássico é a vacinação de animais domésticos, como cães e gatos, contribuindo diretamente para a prevenção de doenças em humanos, como a raiva.

Outro exemplo é a qualidade da água: quando rios e reservatórios são contaminados, os impactos se espalham por toda a cadeia, afetando fauna aquática, animais domésticos e populações humanas. Isso evidencia a interdependência central da saúde única.

A segurança alimentar também é um pilar importante. A produção de alimentos de origem animal exige controle sanitário rigoroso para evitar doenças, o que envolve desde práticas agropecuárias até fiscalização e políticas públicas.

 

Saúde única em contextos de desastres

 

Em cenários de desastres, como enchentes, secas e deslizamentos, a saúde única se torna ainda mais evidente e necessária. Esses eventos alteram drasticamente as condições ambientais, aumentando riscos sanitários para humanos e animais.

A contaminação da água, por exemplo, pode desencadear surtos de doenças infecciosas, enquanto o deslocamento de animais pode favorecer a transmissão de zoonoses. Esses fatores exigem respostas rápidas e integradas.

 

Alguns outros riscos comuns em desastres sob a ótica da saúde única:

  • Disseminação de zoonoses;
  • Contaminação de água e alimentos;
  • Deslocamento de fauna;
  • Colapso de serviços de saúde.

 

Além disso, o colapso de infraestruturas sanitárias compromete o acesso a serviços de saúde, agravando vulnerabilidades sociais e ambientais. A saúde única permite compreender esses cenários de forma sistêmica e propor soluções mais eficazes.

A atuação coordenada entre diferentes profissionais, como veterinários, médicos, biólogos e equipes de emergência, é essencial para reduzir riscos e proteger vidas em situações de desastre.

 

O papel do GRAD Brasil na saúde única

 

O GRAD Brasil (Grupo de Resposta a Animais em Desastres) desempenha um papel fundamental na aplicação prática da saúde única em cenários críticos. Nossa atuação integra o resgate, manejo e cuidado de animais afetados por desastres, contribuindo diretamente para a proteção da saúde coletiva.

Ao atuar em emergências, o GRAD não apenas protege os animais, mas também reduz riscos sanitários, como a disseminação de doenças e a contaminação ambiental. Essa abordagem está totalmente alinhada aos princípios da saúde única, que reconhecem a interdependência entre todos os componentes do sistema.

Conheça algumas contribuições do GRAD na saúde única:

 

Operação Acolhida (crise sanitária)

No ano de 2018, a Operação Acolhida foi criada como uma estratégia de resposta humanitária do Governo Federal ao fluxo intenso de refugiados e migrantes venezuelanos na fronteira com o Brasil, especialmente no estado de Roraima.

Em um cenário humanitário complexo em municípios próximos à fronteira entre Brasil e Venezuela, a presença de animais nos abrigos passou a representar um desafio adicional nos contextos de deslocamento populacional.

Membros da equipe conversando com moradores e famílias multiespécie do abrigo de refugiados e migrantes venezuelanos.

Atendimento veterinário realizado pela equipe do GRAD Brasil em cão residente no abrigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dentre alguns dados, podemos apontar que mais de 259 animais foram assistidos em atendimentos clínicos, incluindo cães, gatos e um psitacídeo. Aproximadamente 3.000  pessoas participaram de atividades educativas em saúde e bem-estar animal, sendo grande parte delas crianças. Na segunda fase da missão, foram realizadas 266 castrações de cães e gatos em todos os abrigos de Boa Vista, superando a meta inicial prevista. Na base de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, os relatórios indicam que 134 animais foram castrados, vacinados com V8 e antirrábica, desparasitados e microchipados.

 

A partir dessa realidade, o GRAD desenvolveu uma atuação técnica voltada ao cuidado com animais, considerando seus impactos na saúde coletiva e na dinâmica dos espaços compartilhados. Clique aqui e saiba mais!

 

Atuação do GRAD com povos indígenas no Brasil

O GRAD atua levando assistência médico-veterinária a territórios indígenas, sobretudo ao Povo Yanomami. Esse trabalho busca promover saúde e bem-estar de forma integrada, respeitando os modos de vida das comunidades e cuidando de todas as espécies que compartilham esse território.

Cão residente da Terra Indígena Yanomami, infectado por tungíase, popularmente conhecida como bicho-de-pé.

Criança Yanomami passando por acompanhamento médico devido à infecção por tungíase.

 

 

 

 

 

 

 

 

O GRAD foi a única organização que levou médicos veterinários ao território Yanomami. Em uma dessas ações, mais de 130 animais foram atendidos com vacinação, vermifugação, exames clínicos e tratamento de enfermidades. Até o momento, a instituição já atuou em pelo menos 15 comunidades indígenas em diferentes estados brasileiros. Clique aqui e saiba mais!

 

 

Ação do GRAD na enchente no Rio Grande do Sul

A atuação do GRAD durante a enchente no Rio Grande do Sul é um exemplo de resposta eficaz, ética e compassiva diante de desastres. Por meio de planejamento, estrutura, conhecimento técnico e um profundo respeito pela vida, o grupo demonstrou que é possível proteger vidas mesmo nas situações mais difíceis.

Ao todo, mais de 1.000 animais foram resgatados. Em parceria com 3 universidades e 9 clínicas veterinárias, 76 animais foram internados, 42 passaram por cirurgias e mais de 300 exames veterinários foram realizados, dentre ultrassonografias, radiografias e hemogramas. Também foi realizado um controle populacional ético de mais de 5 mil cães e gatos, onde os mesmos foram assistidos com protocolos sanitários, alimentos e insumos diversos.

Animais resgatados em abrigo improvisado durante as cheias no Rio Grande do Sul, em 2025.

A história dessa operação é uma lembrança viva de que toda vida importa, e que nenhuma deve ser deixada para trás. Clique aqui e saiba mais!

 

GRAD frente ao resgate de animais na Zona da Mata de Juíz de Fora (MG)

O GRAD atua na cidade e na região com equipes voltadas ao resgate e à assistência veterinária, tanto para animais levados aos abrigos quanto para aqueles que ficaram em áreas de risco. Até o momento, foram resgatados mais de 50 animais na região.

Desde os primeiros dias da emergência, profissionais e voluntários têm se dedicado ao resgate de animais em áreas afetadas, ao atendimento veterinário emergencial e à organização de espaços temporários para acolhimento daqueles retirados de situações de risco. Clique aqui e saiba mais!

 

Animais resgatados em Juiz de Fora após um deslizamento de barranco.

 

Outras contribuições do GRAD Brasil para a saúde única:

 

O GRAD atua na capacitação de profissionais, conscientização da população e desenvolvimento de protocolos para resposta a desastres, fortalecendo a integração entre diferentes áreas do conhecimento.

Nossa atuação evidencia que cuidar de animais em situações de crise não é apenas uma questão de bem-estar animal, mas uma estratégia essencial de saúde pública e ambiental.

Tem interesse em atuar na promoção da saúde única? Participe da Capacitação 2026. A única e mais completa do Brasil para quem quer atuar na resposta a desastres e ajudar as famílias multiespécies. Clique aqui e garanta a sua vaga!

Clique aqui e fique por dentro de mais ações do GRAD Brasil, por meio de artigos a respeito de saúde única em nosso site.

 

Escrito por: Manoel Pontes – Greenbond Conservation

Revisado por: Juliana Badari – Greenbond Conservation

Juntos, podemos fazer a diferença na vida dos animais em situações de emergência.

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